segunda-feira, 25 de agosto de 2008

POEMAS CHINESES





Canção do trigo à maneira de Han

O trigo está verde:
Preciso é que amadureça.

E quem serão os ceifeiros?
- As mães os seus meninos...

(Os homens estão para o sul
A combater os bárbaros).
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Por um anónimo da Dinastia T'sin(*)

Os mandarins
compram cavalos brancos.
Os grandes senhores
têm palácios de oiro.
Mas, cuidado:
Nem uma palavra, amigo.

(*)Período em que foram queimados os livros e enterrados vivos todos os poetas (N. do A.)

domingo, 24 de agosto de 2008

VENTOS QUE VÃO, VENTOS QUE VÊM...

(Mulher Com Sombrinha - Claude Monet)


(Seria uma crônica.Virou conto. Tentei resumir, continuou conto .Essa é a primeira versão, que não foi publicada. Não adianta: quem nasceu pra ser prolixa, nunca chega à concisão do Zé Mucinho!)__________________________________________________________________________________
Sofia abriu o caderno onde escrevia seus poemas. Releu o que havia escrito. Sabia o porquê dos versos tão pessimistas: era por causa de agosto. Esse mês, desde o tempo de criança, lhe causava apreensão! Suicídios, desastres, mortes... O que salvava os dias cinzentos, a seu ver, era o vento. Que ela adorava! Até que... Estremeceu ao lembrar que naquele mês aziago, tivera a maior decepção de sua vida. E vivera aquela paixão desesperada e não correspondida. Sentira ânsias de morte. E passara o odiar profundamente o mês e os ventos que o acompanham. Ventos... Daí os versos: CALENDÁRIOÉ agostoE no meu rostoSe acentua o meu desgosto.Cada qual na sua faceQue a sua sina trace,A minha já está traçada:Na engrenagem da vida,esmagada, bem moída,uivo de medo e de dor...é agosto,e o meu desgostomarca as marcasdo meu rosto.Dói bem fundo,Dor bem fina,Dor doída, minha sina.Percebo que essa dorQue me rói e estraçalhaFeito fio de navalhaNão é por causa do mêsJá nasceu aqui comigoComo gêmeo siamês.E é fato verdadeiro,Essa dor, pelo que entendo,Dói de setembro a dezembro,De janeiro a fevereiro,E no mormaço de marçoDói como nunca se viu.-A dor não some, é abril!Em maio ela continuaCrua, triste, feia e nuaJunho, julho, não sumiu!E nem, bem o frio jaz posto,Eis de novo o mês de agosto,Pobre mês, triste, alcunhado,De azar acompanhadoQue carrega, desencanto,A desculpa do meu pranto.É agosto,e o meu desgostoCarpe as mágoas em meu rostoNeste longo calendárioMinha dor, meu inventário.Fechou o caderno, cerrando os olhos. Lembrou-se dele. O sorriso infantil, a cara de menino inocente. Vira-o pela primeira vez em um museu quando mais uma vez, admirava a escultura que tanto lhe dizia. Era de um artista não muito conhecido, chamava-se “Mulher ao Vento” e mostrava uma figura feminina, de mãos estendidas, cujos cabelos estavam revoltos, suspensos pelo vento. O rosto da mulher, de olhos fechados, demonstrava êxtase... Sofia gostava de ficar admirando a estátua, imaginando-se frente ao mar, ou melhor, numa montanha da Irlanda, olhando o mar, lá em baixo, quebrando as ondas contra os penhascos... O vento lhe agitava o cabelo e as roupas, e lhe contava segredos, que só ela entendia. Ah, o cheiro da brisa que lhe chegava, de terras distantes, contando de viagens e marinheiros e mulheres apaixonadas, e por que não, sereias? Com o tempo, olhava para a estátua e via a si própria, e assim estava, quando o percebeu. Estava de pé e olhava fixamente para a mesma obra. Parecia ter cerca de 23 anos, cabelo claro, óculos ao estilo Jonh Lennon. Vestia jeans surrados, um pulôver marrom e em volta do pescoço, usava um cachecol bege, que o protegia do frio. Ele notou seu olhar e sorriu para ela, que também sorriu. Afastou-se em seguida, e ela teve a impressão de que a brisa irlandesa a envolvia. Era só ela, no promontório e o vento que lhe desfazia o cabelo. Mas a fantasia ficou diferente, o cenário de seu sonho se iluminou com a presença do homem que subia lentamente a montanha...E que tinha vindo por ela guiado pela brisa que traz perfumes e amores! A espera terminara, afinal.Ele se aproximava e ela sabia o que iria acontecer... -Com licença, pediu alguém apressado- e ela voltou à realidade, envergonhada.. Afastou-se do local, caminhando devagar, deixando que o sol de inverno aquecesse seu corpo. No outro dia, na livraria, tentava organizar uns volumes de uma coleção de pintores famosos, quando alguém entrou. Virou-se para atender e estremeceu quando o viu. Procurava um livro de Mayakowski. Adorava poesia russa e idolatrava os romances de Dostowévski, intensamente mesclados com os piores e melhores sentimentos humanos. Ela também. O papo evoluiu, ele convidou-a para um café, não era sempre que se conhecia alguém que entendia tanto de literatura, e que gostava do mesmos autores que ele venerava. Bem, disse ela, eu já estou mesmo na hora do lanche. Há uma lanchonete ao lado! Sentaram-se em uma mesinha, ele pediu um café, ela preferiu uma laranjada. Falaram sobre poetas russos, literatura russa, francesa, poetas brasileiros... Para um rapaz tão jovem, ele demonstrava muito conhecimento. Despediram-se. Ele voltou outras vezes, saiam juntos, bebiam e conversavam. Nunca trocaram um beijo, mas ele demonstrava carinho por ela. Que descobriu-se profundamente apaixonada pelo rapaz, que estudava Arquitetura, viera transferido de uma cidade interiorana, e procurava adaptar-se à vida da cidade grande. Não compartilhava o gosto pelas farras estudantis, era tímido e educado, lia muito e pretendia fazer Doutorado na Espanha. Parecia não ter preocupações financeiras, comprava muitos livros; ficaram amigos, riam, encontravam-se quase todos os dias, ele a acompanhava a concertos e exposições. Às vezes ficavam na praça, olhando as flores e ela amava ouvi-lo falar sobre o tanto que gostava do ...vento! Seu coração batia mais depressa, ao vê-lo. Começou a se perguntar onde aquilo iria parar. Já completara 38 anos, era bonita, tinha um corpo bem-feito, mas ele era tão jovem! Sua amiga Mara a alertava: - Sofia isso não vai dar em nada, saia dessa, o que você pode esperar? Mas ela continuara a vê-lo, esperando que um dia ele se declarasse e a tomasse nos braços...Até o dia em que tocou a campainha de sua casa. Não estava só. Com ele, uma jovem. - Esta é Marina, apresentou. Veio morar comigo. Estava doente e ficou na minha cidade até melhorar. Ainda não arranjamos um apartamento, ela só viria no final do mês, mas me fez uma surpresa, por já se sentir melhor. Será que ela pode ficar na sua casa, por uma semana? Sofia sentira um frio no peito! Descobrira que odiava o vento, que lhe trouxera o amor e de repente, dava-lhe uma rasteira. Mandou que entrassem . –Sim, é claro, entrem, vamos combinar tudo. Aquela tinha sido a semana mais dolorosa de sua vida. Ver o carinho dele para com a mocinha que amava, ver como ele a olhava e lhe acariciava a barriga que se desenvolvia...Ajudou no que pôde. Mudaram-se. Apreciam de vez em quando, até que a moça, que era pintora, ganhou uma bolsa de estudos em Paris. Contudo, nunca mais se permitiu voltar ao penhasco irlandês, e passou a arrenegar o vento... Mudou de hábitos, passou a ir a outra lanchonete, a outra praça, desdenhou a arte russa. Até que um dia, transcorrido algum tempo, justamente no início de agosto, tomava sol em um banco do Jardim das Dálias, no horário de almoço. Fechara os olhos evitando pensar em qualquer coisa. Coração vazio. De repente, ouviu como um farfalhar e algo lhe roçou a cabeça, tocando-lhe as mãos e os pés. Deu um grito, assustada, abriu os olhos e percebeu que fora atingida por uma pipa colorida. Que agora, estava a seus pés. Então percebeu que um homem se aproximara. Era alto, cabelos grisalhos. Quando chegou mais perto, percebeu os olhos cinzentos, o sorriso másculo, o corpo forte. E ouviu o pedido de desculpas. -Ôpa, fizemos uma manobra atrapalhada, eu passei a manivela para o Rafinha, ele recuou, caiu, e a pipa mergulhou em sua direção. Machucou alguma coisa? Olha eu sei que parece criancice, mas eu adoro pipas! Trabalho no exterior, mas quando visito a família, sempre acompanho um dos meus sobrinhos ao parque para aproveitar o vento. Eu amo o vento! E você? Vem sempre aqui?Algum tempo depois, Sofia anotou no caderno: não é que este mês não é tão azarado assim? Afinal, os ventos de agosto trazem coisas interessantes!...

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

POETAS E POEMAS QUE AMO

UMA PALAVRA

(CHACAL)

Uma
palavra
escrita é uma
palavra não dita é uma
palavra maldita é uma palavra
gravada como gravata que é uma palavra
gaiata como goiaba que é uma palavra gostosa

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RÁPIDO E RASTEIRO

(CHACAL)

Vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar
aí eu paro, tiro o sapato
e danço o resto da vida.
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NADA SERÁ COMO ANTES
(CHACAL)

Nosso amor puro
pulou o muro
caiu na vida.
jamais seremos o par
romântico
que outrora fomos.
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PRONTO PRA OUTRA

(CHACAL)

Gravei seu olhar seu andar
sua voz seu sorriso.
você foi embora
e eu vou na papelaria
comprar uma borracha.
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JOGOS FLORAIS


CACASO

I
Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
II
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre;
a água já não vira o vinho,
vira direto vinagre.
III
Minha terra tem Palmares
memória, cala-te já.
peço licença poética
Belém, capital Pará.
IV
Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com 2 esses
que se escreve paçarinho?)
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O LUGAR DA TANSGRESSÃO
(CACASO)

Encontrei um sapo cochilando dentro de
Minha botina. Nunca me meti em botina
De sapo. Que liberdades são essas?
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AUTORES E POEMAS QUE AMO!


Fernando Pessoa
FERNANDO PESSOA - Cancioneiro

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda Gira,
a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
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AS HORAS PELA ALAMEDA

FERNANDO PESSOA

As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,

Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada

Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar –

A expirar mas nunca expira
- Uma flauta que delira,

Que é mais a idéia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranqüila

Pelo ar a ondear e a ir...
Silêncio a tremeluzir...
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MAR PORTUGUEZ

FERNANDO PESSOA
Ó mar salgado,
quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos,
quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

COISAS DESSES BRASIS

19/08/2008 -
Essa escriba achava, meus leitores e leitoras, que já tinha visto e ouvido de quase tudo na face da Terra. Mas sempre há jeito de ser surpreendida. Não falo de coisas ruins, porque essas estão clamando aos céus: já escrevi aqui que, enquanto atingimos o ápice da tecnologia, praticamos cada vez mais atos que nos remetem à Idade da Pedra Lascada! Ara, sô! Minha tia, a terrível, desbocada e onírica Lady Zeferina também achava que já havia presenciado de tudo nesta vida, desde capadura de cabra abusado até cartaz de pai-de-santo anunciando a cura para espinhela caída, mau-olhado, unha encravada e negócios enrolados, males de amor e viadagem. Só que “fiquei de bobes e peruca kanecalon” ao ouvir um relato da minha filha Larissa, que veio nos ver no feriado, depois de 2 meses trabalhando lá em... (permitam-me não dizer o nome) que fica a uns três quilômetros pra lá de onde Judas perdeu as botas. Entre risos, causos sobre o serviço, comida caseira, telefonema de amigos e outros que tais, fiquei sabendo que, lá onde ela está morando, por força de desempenho de sua profissão de nutróloga, há um costume bastante curioso: a cidade conta com o serviço de carros com alto-falantes que anunciam os óbitos e convidam para os serviços religiosos e enterro. Só que, - valha-nos Deus!- o convite não é feito pela família e sim - pasmem ! - em nome do..falecido... Então, é comum ouvir-se pelas ruas da cidade o curioso convite: PEDRO XUMBREGA DA SILVA CUMPRE O DOLOROSO DEVER DE COMUNICAR O SEU FALECIMENTO OCORRIDO HOJE ÀS DEZ HORAS. SEU CORPO SERÁ VELADO NA CAPELA DE SANTO ANTÃO, NA RUA PRINCIPAL. O ENTERRO SERÁ REALIZADO NO CEMITÉRIO DA CIDADE, ÀS 9 HORAS DE AMANHÃ. POR ESTE ATO DE FÉ CRISTÃ, PEDRO ANTECIPA SINCEROS AGRADECIMENTOS!

S.O.S. BR-381
Um dia vou parar e juntar todos os comentários que já publiquei sobre a famigerada BR-381 nesses 30 e tantos anos de Ipatinga. Fábrica de defuntos, pela quantidade de desastres nesse trecho do Vale do Aço, mais uma vez a via requer mobilização de forças para sua melhoria . O Rotary Club já se posicionou, cobrando a duplicação da estrada. Tem todo o nosso apoio, pois já chega de sofrer. Observem o trecho Horto-Centro: pista irregular, buracos cavernosos que arrebentam os pneus, depressões que podem causar e causam inúmeros acidentes. Socorro, Ministério dos Transportes, Dnit, e quem mais possa ser responsabilizado! Cadê o dinheiro dos nossos impostos?



ELOS
Todo mundo sabe que sou professora. E que amo as escolas e os alunos, e que acredito que a redenção do homem, enquanto ser humano, somente é alcançada através da Educação. Creio que educar se faz por meio de muitos atos, de muitas maneiras. Creio que as sementes que jogamos, um dia darão frutos. Creio em elos. Vejam só: enquanto aluna de Letras da Unipac, a professora Helena assistiu a uma palestra que fiz sobre “COMO FAZER UM TRABALHO CRIATIVO COM POESIA”. Quem me levou lá foi a mestra Eliane Neves, filha de Pedro e da grande educadora Leila Neves. Que eu conheci na antiga Escola Santiago Dantas, o primeiro local onde lecionei em Ipatinga, isso por volta dos anos 70. Agora, já exercendo o magistério, Helena me convidou para falar para as 5ªs séries da Escola Estadual Márcio Cunha, no Horto. Lá fui eu. Minha fiel escudeira, Tia Leila, estava lá. Fui surpreendida ao ver que vários alunos haviam pesquisado sobre minhas crônicas no site do Diário do Aço. E foi uma festa. Falar sobre a importância da leitura, e sobre Poesia, para mim, é mamão com mel! Adoçado ainda pelo carinho da escola, pela atenção da diretora Maria do Carmo, pelo brilho nos olhos dos alunos... Contei história, brincamos com trava-línguas, dei autógrafos... Usei “OU ISTO OU AQUILO” de Cecília Meireles para falar da importância das escolhas que temos de fazer na vida. Cumprimento à professora Helena e aos alunos da turma Jequitibá! Ganhei abraços e beijos, cartazes de boas-vindas, cartinhas e bilhetes. E um monte de novos amiguinhos! Coisa mais linda! É assim formando elos, que a vida se torna melhor!