quinta-feira, 21 de maio de 2009

GOURMANDIZES

(Nena de Castro)

Os ricos comem caviar,
Crepe Suzzete e lagostim
com champagne.
Contudo, nunca provaram
o ensopado de inhame
feito pela mui digna D. Inês,
que vem a ser
a senhora minha mãe.

caldinho fumegante ,
cheirando a cebolinha
e pimenta do reino,
misturado ao arroz e feijão
cozidos em banha de porco
na panela de ferro
no fogão a lenha.
Hum...

Grande chef de cuisine,
Sabedora das mineirices culinárias
cujos sabores e mistérios
se escondem
no santuário
das montanhas de Minas,
mamãe cozinhava e nos enlevava.
Tempo bom!

Quanto aos ricos, bem,
Eles têm chefs franceses
salmon, salada Waldorf,
mas o caldo de inhame
feito por mamãe,
ascendia aos céus
e nos sustentava o corpo e a alma...

Pobres ricos!
tenho tanta pena,
que nem vou falar
no mingau de fubá
com couve rasgada,
na pamonha temperada
com pimenta malagueta
cozida na folha de banana,
e na galinha recheada pelo fiofó,
costurada bem cheinha
de farofa de miúdos,
que eles nunca haverão de provar,
ò dó!



CARTA PARA IL SIGNORE BERLUSCONI

27/01/2009 -
(Nena de Castro)

Excelentíssimo, ilustríssimo e tudo quanto é íssimo 1º Ministro da Itália, Sílvio Berlusconi

Eccellenza, buon giorno!

Grazie por receber esta missiva. Aqui quem escreve é uma velhinha da plebe ignara brasileira, uma macróbia pertencente à patuléia, à choldra, e que reside por entre as montanhas de Minas Gerais. Ocorre que, tendo lavorado incessantemente durante toda a minha existência, ando meio desacorçoada; veja o signore, ainda pequena, já carregava a vasilha de leite e o balaio com esterco para mamãe adubar nossas couves e taiobas. Tangi boi no engenho para o fabrico de rapadura, soquei café em coco no pilão, para meu pai avaliar a qualidade e, por ser caçula, tinha de colocar água e comida para os porcos. Fui também atendente e caixa na padaria de meu pai, e após fazer o Curso Normal, lavorei, lavorei e lavorei como professora e ainda lavoro. Allora, io e mio esposo resolvemo nos separar, e fomos contar nossos bens: três filhos, um "cachorro coxo" que não "se chama Caxambu", e uma sabiá que não paga aluguel, a Gertrud; um carro da era de Matusalém, um sofá velho, meia dúzia de pratos, três conchas, 3 garfos e duas colheres... Per favore, scusa estar falando do pouco que tenho, ma noi duo desistimo da separacion, ia dar molto trabalho por niente. Ma Eccellenza, porca miséria, quem me dera ser parte daquele divórcio do casal de políticos que possui 145 fazendas, ilhas, aviões, helicóptero, apartamentos em Roma, Paris, poços de petróleo... Va bene, fare o che, continuo casada com mio marido. Ma, Signore Berlusconi, o principal assunto de minha carta é scusarme em nome de meu paese por ter dado asilo ao signore Battisti; coitado, ele é inocente, cometeu só uns crimezinhos de nada, e merece ser acolhido neste paese generoso. Eccellenza, da cabeça desta velhinha veio a solução para impedir la guerra entre as duas nações: Signore, ficamos com Battisti e, em troca, por justiça, lhe enviamos um rapaz ótimo, chamado Fernandinho Beira-Mar! Que tal? Esta velhinha é um gênio e outras coisas que a modéstia impede de dizer! Che sorte a do signore Battisti ser italiano e não cubano, né, senão aí a jiripoca chiava pro lado dele. Signore Berlusconi, além de Fernandinho Beira-mar, io lhe ofereço de presente uma estrada régia, belíssima, sem buracos, sem mortes, chamada BR-381, perfeita para o signore passear quando vier ao Brasil. Eccellenza, vindo à minha terra, interceda por mim, para ver se consigo inscrever meu cãozinho, o Kid, no Programa Bolsa-Família, per favore. Um cidadão honesto conseguiu inscrever seu gatinho, de nome Billy da Silva Rosa, ma, perche io non posso inscrever o Kid Vieira da Silva Castro no programa? Scusi, ma penso que, na verdade, Kid, que tem a bacia quebrada e é manco, devia mesmo é ser aposentado por invalidez, capisce? Signore, algum dia irei ao seu paese, pois sei que V. Eccellenza é um homem probo, de fala comedida, que admira as pessoas "queimadinhas de sol" e zela pela moral e bons costumes. Aliás, aplaudi muitíssimo quando mandou cobrir aquele seio de uma obra de arte que ficava atrás de sua mesa de trabalho. É vero, Eccellenza, fiquei emocionada com vossa iniciativa e, quando estiver aí, permita-me cobrir as partes daquela estátua de Davi, feita por um tal Michelângelo Buonarotti, ma que indecenza, as partes do bem dotado rapaz estão todas expostas! Mamma mia, vou cobri-lo, em nome da TFM e de todas las instituiciones que velam pela moral neste mondo perdido. Augurando-lhe felicitá com a troca de Batttisti por Fernandinho Beira-mar, despeço-me.
Grazie per tutti, Dio te benigne, arrivederci.
Sua extremosa amica
Zefa da Furquia

terça-feira, 7 de abril de 2009

GERTRUD ESTÁ DE LUTO...


Gertrud, minha sabiá, canta do jardim me chamando. Pelo seu canto percebo que está impaciente e zangada. Chego até à janela.- Olá, Gertrud! Como vão as coisas?- Até que enfim! Não tenho o dia inteiro!- Nem eu, Gertrrud. Estou escrevendo minha crônica. Aliás, você podia me explicar o que fazia sexta-feira, perto da Prefeitura? Não disfarce, eu a vi lá; você fingiu que não não era com você, mas eu vi, amiga!Gertrud dá uns pulinhos no galho da escumilha, se ajeita em um pé, procura uma posição melhor... Está inquieta e realmente zangada:- Olha aqui, posso voar e ir para onde eu quiser, sou um pássaro! Não sou limitada como os seres humanos, nem tenho excesso de peso como certas pessoas com quem convivo!- Sem ofensas, Gertrud, o meu peso não é da sua conta. Mas você ainda não me respondeu: o que fazia por lá?- Bom - diz a avezinha, mudando de galho -, eu fui lá saber das novidades. Afinal, quem vai ser o prefeito de Ipatinga? Estou receosa de uma reedição do drama tragicômico de Timóteo. E nesse caso, a cidade pára, e o povo sofre!- Gertrud, não vou discutir isso com você, é cedo pra gente se arriscar em prognósticos. Vamos aguardar, digo em tom conciliador.Ela nem me ouve e dispara: - E aquele absurdo da condenação do casal Nunes, de Timóteo, que quer educar seus filhos em casa e está levando o maior ferro nos Tribunais? Meu Deus: alguém, por favor, tire a “venda da Justiça” no tocante ao caso dos irmãos Jônatas e Davi Nunes que os pais querem educar em casa! Logo nesse país, com tantas crianças e adolescentes nas ruas, com o péssimo nível de ensino que temos, que nos deixa nos últimos lugares entre os países no quesito qualidade de educação, parece brincadeira!- Gertrud, você hoje está impossível! Veja se me deixa em paz, estou tentando escrever sobre um poema de Álvares de Azevedo, dá um tempo, amiga!- Muy amiga, nem quer me ouvir hoje! Você parece traça de livro, sempre rodeada por essa papelada!- Ué, Gertrud, pensei que gostasse de livros, de poesia, de ler... Vive me citando trechos de lindos poemas, de romances... - Gosto sim, mas hoje não quero saber de nada!- Mas o que foi, criatura, por que você está soltando fogo pelas ventas?- É por causa do meu parente, o Pixarro, lá em Itapira, em S. Paulo! Coitado, que morte inglória! Além de viver no cativeiro, foi roubado, e colocado na cueca do ladrão! Morreu sufocado, por falta de ar e pelo calor daquela “coisa horrorosa”. Pobrezinho! Se ainda tivesse sido apanhado por um gavião, mas não, foi enfiado lá junto das “partes” do desalmado! Acabou indo desta para melhor, de uma forma tão absurda tão... kafkiana! – disse, enxugando as lágrimas!- Gertrud, eu... - Fiquei sem saber o que dizer. A sabiá alçou voo e se foi. Ainda pude ouvir sua voz:- Também, num país em que o presidente vai tentar explicar a crise econômica, com o estado de um doente e fala “sifu”, numa declaração, o que se pode esperar? E alçou vôo e foi embora... Pobre Gertrud, pobre trinca-ferro, ai de nós...

POESIA SEMPRE

COGITO
(Torquato Neto)
eu sou como eu sou
pronomepessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

DE SARAMAGO,enchentes e rosas...


Nena de Castro - MACUNADRU

O escritor português José Saramago não acredita em Deus. Direito dele. Cada um escolhe em que acreditar... Deus está em tudo, e a prova se faz no nosso dia-a-dia, na contemplação de tudo que existe. Ruinzinhos mesmos somos nós, que destruímos metafórica e literalmente a beleza da Criação, e cavamos nossa própria sepultura. Deus é a realidade mais tocante e verdadeira para quem crê, independente de rótulos, religiões e códigos... Eu creio nEle, mas eu não sou Saramago. O brilhante jornalista, poeta, roteirista, dramaturgo e escritor foi agraciado com o prêmio Nobel de Literatura de 1988. A ele devemos o efetivo reconhecimento internacional da prosa em Língua Portuguesa. Saramago maneja as palavras como se tivesse uma relação incestuosa com elas; num brilhantismo total, as palavras são suas filhas, são suas irmãs, suas servas, espada e corcel e por que não? suas doces amantes.. . Sara-Mago é, como diz seu nome, um curandeiro, um mágico que nos salva da monotonia, e da obscuridade, entrecruzando as palavras com maestria e nos proporcionando um prazer estético sem limites. Certamente meus leitores e leitoras sabem de seu livro "Ensaio sobre a Cegueira", que deu origem ao filme de mesmo nome dirigido pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles. Já "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" lhe rendeu muitas polêmicas, principalmente com o Vaticano, que por ocasião do Nobel, fez sérias críticas pelo prêmio "ter sido concedido a um comunista..." Bom, o mágico esteve no Brasil semana passada, lançando seu novo livro e participando de um debate pelos 50 anos da Ilustrada , que vem a ser o caderno cultural da "Folha de S. Paulo. Com a clareza e inteligência de sempre, discorreu sobre a nossa má postura diante da vida. Afirmou, peremptoriamente, "que a humanidade não merece a vida, que a história é um desastre contínuo. Nunca houve nada que se parecesse com um momento de paz . Não usamos a razão para defender a vida; usamos a razão para destruí-la de todas as maneiras – no plano público e privado." E continua o escritor: Por que teria que mudar minha concepção de Deus após a doença? Porque supostamente me salvou a vida? Quem me salvou foram os médicos e a minha mulher. E Deus se esqueceu de Santa Catarina? Não quero ofender ninguém, mas Deus simplesmente não existe." E por aí afora foi o "encantador de palavras", numa palestra concorridíssima, cujo resumo li com veneração e respeito. Só que, data maxima venia, desculpando-me pela minha pequenez, pela minha ignorância, pois afinal não passo de aprendiz de escriba, jia–cururu espiando os grandes astros do Olimpo dos escritores, eu discordo de SARA-MAGO quanto a Deus ter se esquecido de Santa Catarina, ou da África, onde tantos morrem de fome, ou dos povos em eterno conflito no Oriente. Quem provocou a tragédia de Santa Catarina não foi o Criador e sim, o próprio homem. Para começar, a Defesa Civil de lá sequer tinha listadas as áreas passíveis de inundação. O solo argiloso, a declividade das encostas, os desmatamentos, as ocupações desordenadas, e outros que tais, ignorados pelas autoridades que só se movimentam (e às vezes com muita lentidão) depois das tragédias, deu no que deu: centenas de vidas preciosas perdidas. Ah, não venham culpar Deus por isso! Contudo, louve-se a solidariedade do nosso povo! O brasileiro, para nosso orgulho, tem a generosidade no coração! A propósito, as declarações do gênio das letras portuguesas trouxeram-me à memoria um fato de abril de 1961: o russo Yuri Gagarin, a bordo da nave Vostok I, realizou a incrível façanha de fazer a primeira volta completa em órbita ao redor da Terra. Declarou primeiro a frase que fez a delícia dos poetas "a Terra é azul." Depois, seguindo certamente as tendências ideológicas de seu governo, afirmou: "estive no céu e não vi Deus." Tal assertiva teve grande repercussão na época. Uns acharam ótimo, outros se indignaram, mas a melhor resposta foi dada por um religioso norte-americano, cujo nome não me lembro, em um artigo de famoso jornal: "Meu caro Gagarin: você declarou que esteve no céu e não viu Deus. Pois eu lhe digo que não viu porque não quis. Era só tirar o equipamento e dar um passo para fora da nave..." Pois é, louvando o saber, o brilhantismo, o domínio das letras, a inteligência de SARA-MAGO, a jia-cururu aqui torce para que ele possa conhecer Deus, ainda antes de sair da nave-Terra....
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VIVER E FESTEJAR!
Era uma manhã de sexta feira cinzenta. Que de repente ficou iluminada, com a presença de duas pessoas excepcionais: meu amigo Beto Souto e sua amada, Célia Garcia de Moraes. Traziam sorrisos, e ele nas mãos, uma linda orquídea. Era a flor pelo meu aniversário, que ele me oferece todos os anos. Ia me entregar no dia 31 de outubro, durante o evento literário que a professora Célia faz com seus alunos, no Colégio Assedipa, já em sua 6ª edição. E que neste ano homenageou poetas da região. Eu tive a felicidade de ser uma das escolhidas, apesar de ser uma poeta incipiente, e uma cronista que tecla e mal, umas croniquetas que são toleradas pelos meus leitores e leitoras. No entanto, tinha um outro compromisso literário, agendado previamente e não pude participar da linda festa. Depois, fiquei uns dias "de bode" por causa de ites e oses e eles deixaram para me entregar a flor quando pudessem me encontrar. Que bom, já dizia o poeta "todo dia é dia de viver". E de festejar. Além disso, recebi um dos meus poemas, Enigma, em forma de banner, feito pelos alunos da professora Célia. Fiquei grata e comovida. Beto, professor de História, já aposentado, um caráter excepcional, ama as rosas. Tem dezenas de roseiras no seu jardim. E ama Vinícius de Moraes. E ama sobretudo, a professora Célia, que corresponde ao seu amor, e também, ama Vinícius, a Língua Portuguesa, a Literatura, e o trabalho que faz, plantando beleza na mente de seus alunos. E eu tenho a maior alegria de conhecer s dois. E nada mais digo!

POESIA SEMPRE

EU LUMINOSO NÃO SOU
(José Saramago)

Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d’água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.








sexta-feira, 21 de novembro de 2008

POESIA SEMPRE

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO foi um poeta português, amigo de Fernando Pessoa. Foi a Fernando que ele dirigiu sua última carta, antes do suícídio. Observe a beleza triste do poema onde o poeta parece preso à fatalidade. Ele"quase" alcança seu desejo, mas este está sempre além...

QUASE
Mário de Sá-Carneiro


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...

Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

MANUEL DE BARROS, MEU POETA

Seis ou treze coisas que aprendi sozinho


Gravata de urubu não tem cor.
Fincando na sombra um prego ermo, ele nasce.
Luar em cima de casa exorta cachorro.
Em perna de mosca salobra as águas se cristalizam.
Besouros não ocupam asas para andar sobre fezes.
Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.
No osso da fala dos loucos têm lírios.

Tem 4 teorias de árvore que eu conheço.
Primeira: que arbusto de monturo agüenta mais formiga.Segunda: que uma planta de borra produz frutos ardentes.Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um poder mais lúbrico de antros.Quarta: que há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes.

Uma chuva é íntima
Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas;Se aparecem besouros nas folhagens;Se as lagartixas se fixam nos espelhos;Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores;E o escuro se umedeça em nosso corpo.

Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, a lesma deixa risquinhos líquidos...A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as palavras Neste coito com letras!Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-seNa avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesmaescorre. . .Ela fode a pedra. Ela precisa desse deserto para viver.

Que a palavra parede não seja símbolo de obstáculos à liberdade nem de desejos reprimidos nem de proibições na infância,etc. (essas coisas que acham os reveladores de arcanos mentais)Não. Parede que me seduz é de tijolo, adobe preposto ao abdomen de uma casa.Eu tenho um gosto rasteiro de ir por reentrâncias baixar em rachaduras de paredes por frinchas, por gretas - com lascívia de hera. Sobre o tijolo ser um lábio cego.Tal um verme que iluminasse.

Seu França não presta pra nada -Só pra tocar violão.De beber água no chapéu as formigas já sabem quem ele é. Não presta pra nada.Mesmo que dizer:- Povo que gosta de resto de sopa é mosca.Disse que precisa de não ser ninguém toda vida.De ser o nada desenvolvido.E disse que o artista tem origem nesse ato suicida.

Lugar em que há decadência.Em que as casas começam a morrer e são habitadas por morcegos.Em que os capins lhes entram, aos homens, casas portas a dentro.Em que os capins lhes subam pernas acima, seres adentro.Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros.Terrenos sitiados pelo abandono, apropriados à indigência.Onde os homens terão a força da indigência.E as ruínas darão frutos
(de "O guardador de águas")
,

1 comentários:
Nena de Castro - MACUNADRU disse...
Meu Manuel, nosso Manuel, "poeta é um ente que lambe as palavras" e depois alucina a gente de tanta beleza!Seus versos "me aleluiam" e me fazem pular festeira que nem jia no brejo em tarde de verão.Nena de Castro - MACUNADRU
6 de Outubro de 2008 12:07

E KUNTA KINTE FEZ SUA DANÇA TRIBAL


Nena de Castro
11/11/2008 -

Ao som dos tambores ancestrais, Kunta Kinte dança. Sorriso aberto, gritos de guerra e alegria, Kunta dança. Dança como dançam os homens da sua tribo, quando celebram as caçadas, os casamentos, os rituais de iniciação, as festas religiosas... O corpo do guerreiro Kunta Kinte ginga, sobe, desce, balança, enquanto empunha a lança e o escudo.
O jovem Kunta havia vencido o "kafo", o último grau de instrução pelo qual passavam todos os meninos de seu povo... Aprendera a tomar conta das crianças menores, que ficavam dentro de um cercado no centro da aldeia, junto com as avós; aprendera os segredos de pastorear as cabras e outros animais, sem deixá-los fugir; fora circuncidado; e por fim, seu pai lhe revelara os segredos da vida. Aprendera a caçar e, sobretudo, a ter orgulho de sua tribo, localizada na Gâmbia (África Ocidental), e a respeitar os anciãos, que davam a última palavra nos problemas de todos. O guerreiro que dança, sequer imagina que essa será sua última celebração como homem livre, e que no dia seguinte será capturado como um animal e atirado em um navio negreiro em direção à costa norte-americana. Que, ao lado de seus irmãos de raça, viraria caça, animal capturado, acorrentado, atirado em porões infectos. A viagem era um pesadelo sem fim, com os estupros, a fome, a chibata, as correntes... No desembarque, a venda, a separação dos entes queridos, o início do trabalho escravo nas fazendas de algodão. O jovem guerreiro, humilhado, judiado, tenta fugir: uma, duas, várias vezes, até que lhe cortam a machado a metade de um dos pés. A dor, o sangue, a ferida, e o arrastar-se para o trabalho, sem poder fugir de seu destino atroz. Forçado a aquietar-se, tratou de sobreviver sob o jugo branco. Sua companheira lhe deu filhos; vieram os netos, bisnetos e trinetos, um dos quais, jornalista e historiador, de nome Alex Hayley, levantou a sua história, publicando-a no livro "Negras Raízes". Seus descendentes cresceram em um país de brancos, onde tudo se destinava a estes; a abolição da escravatura deu origem a uma guerra civil, que quase seccionou a nação. Os negros eram considerados entes sem alma, embora a jovem nação americana se declarasse cristã. No entanto, a discriminação continuou. O norte-americano destinava aos negros o desprezo, o ódio racial, a separação de classes; até as privadas primitivas de beira de estrada, aquelas de fossa, nos rincões mais distantes, ostentavam o tenebroso cartaz: "white men only" - só para brancos -, como se as fezes dos homens brancos fossem mais nobres que as dos homens de pele escura. A luta foi muito grande. Milhares de negros enforcados ou queimados pela Ku Klux Klan e ignorados pela sociedade americana, escravocrata e "cristã". Transcorridos tantos anos, nesse início de novembro de 2008, Kunta Kinte dança novamente. Com ele dançam todos os negros, vivos e mortos, em alegria ancestral; soam tambores na noite dos tempos e comemoram juntos: Stokely Carmichael, Charlles Eddie Moore, Malcom X, a costureira Rosa Parks, que um dia se recusou a ceder seu assento a um branco no Alabama, e foi presa, Angela Davis, Martin Luther King, o reverendo Jesse Jackson, os artistas negros que nunca puderam se hospedar em hotel de brancos, e todos os escravos que morreram pela mão dos brancos nessa nação que se diz paradoxalmente, cristã. Kunta Kinte faz, feliz, a sua dança tribal. Um descendente seu, de cabelo pixaim e pele escura como a sua, foi eleito presidente dos Estados Unidos...




POESIA SEMPRE
FALA
(Orides Fontela)
Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.
Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade).


ZOOM
►BOM DIA meu querido amigo Oswaldo Machado de Oliveira Junior, o Dinho, que lê esta coluna pela net, toda terça-feira, lá no Canadá, onde reside com a família. Beijos pra todos, e o carinho dessa escriba.
►Não sei se vocês leram o comentário que o chefe da Ku Klux Klan, o pastor Thomas Robb, fez sobre o pai de Barack Obama. Se não leram, não perderam nada, eita que mediocridade! E o cara se diz cristão, hein!
►Gente, que orgulho dos professores de Ipatinga: sem deixar de lutar por seus direitos, trabalham com garra e tenacidade. A cada dia, novos e interessantes projetos chegam ao conhecimento da Comunidade.
►Um alô especial para Idagmar Habib, uma das grandes damas do Lions Clube na região. Depois de viajar por um monte de locais lindos do Brasil, reassume seu trabalho na Câmara Municipal o jovem advogado Tiago de Castro.
►Hoje, o professor Sávio de Tarso vai fazer palestra para estudantes na sede da Biblioteca Zumbi dos Palmares. Boa pedida!
►Ai, chega de mortes, desastres, tragédias... Vamos relaxar, ler a Bíblia, ler poesia e, sobretudo, clamar pela misericórdia de Deus.
►Gemina Linhares, que bom foi te rever outro dia. Foi rápido, mas o abraço foi caloroso. Valeu.
►Abraços para as mestras Marlene Dornelas, Ane Ribeiro Penha Salazar e Maria Imaculada.
►Uma semana com gosto de macarronada com frango caipira, feita com o molho que só a mãe da gente sabe fazer, compota de caju, suco de tamarindo, versos de Orides Fontela e som de Martinho da Vila. Esperança, alegria , saúde e paaz, são os votos desta escriba.
►Críticas, sugestões e eventuais elogios, pelo e-mail: nenadecastro@yahoo.com.br.