terça-feira, 1 de setembro de 2009

DE GALINHAS AFANADAS E POESIA...

De certa feita, na Defensoria Pública Municipal, atendi a um senhor já idoso, muito humilde, que queria a interdição do filho que o acompanhava. O documento se fazia necessário porque o rapaz, com mais de 30 anos, era como uma criança. Embora não fosse agressivo, fugia de casa, desaparecia por longos períodos, e a família, composta pelo pai e uma irmã, passava por grandes aflições. O documento de interdição era necessário para uma série de atos da vida cível, inclusive busca de tratamento e internação. Verificadas as condições do rapaz, que quase não falava, pedi o competente laudo médico, e dei entrada no processo. No decorrer do mesmo, veio o pai aflito atrás de mim: o filho devia comparecer perante o juiz criminal, acusado por furto ocorrido em outra Comarca. Peguei a cópia do pedido de interdição e fomos para a oitiva. Meu cliente era acusado de ter forçado a porta de uma venda, e subtraído dois cigarros e meia garrafa de cachaça .Ao ler nos autos que o acusado após o "crime" se assentara na calçada da própria venda, onde a polícia o encontrou, o juiz foi tomado por compaixão. Perguntou ao rapaz porque fizera tal ato e ele respondeu que estava com vontade de fumar e de beber e como a venda estava fechada, ele "abrira". O magistrado recebeu a cópia da interdição, e teceu comentários sobre a situação do réu, dizendo que ele nada mais era que um pobre coitado, totalmente incapaz e que certamente deveria ter apanhado e sofrido maus-tratos pelo acontecido. Um mês depois, o pai me procurou em prantos, dizendo que eu parasse com o processo; em mais uma andança, o filho fora atropelado por um carro perto da ponte metálica sobre o Rio Doce e falecera. Do jeito que as coisas corriam, no processo criminal em outra cidade, era bem provável que meu cliente fosse condenado, pois neste país, todos nós sabemos como é a justiça:pobre leva tinta, enquanto tubarão nada na Cote d’Azur! Tudo isso me veio à mente ao receber de um amigo, um e-mail contendo uma sentença exarada pelo então juiz Ronaldo Tovani, que vou mostrar para vocês. A sentença foi traduzida até para o espanhol e logo entenderão a causa. O juiz já se aposentou. Deus lhe conceda longa vida! E vamos lá:

"Em 16 de novembro de 1987, o então juiz auxiliar da Comarca de Varginha (MG), Ronaldo Tovani, recebeu em seu gabinete um processo referente a delito ocorrido no termo judiciário de Carmo da Cachoeira, praticado por um rapaz apelidado de "Rolinha", acusado do furto de duas galinhas.
Para absolvê-lo, exarou a seguinte sentença, redigida em versos:
Poder JudiciárioComarca de VarginhaEstado de Minas GeraisAutos nº 3.069/87; CriminalAutora: Justiça PúblicaIndiciado: Alceu da Costa, vulgo "Rolinha"
Vistos, etc…

No dia cinco de outubro do ano ainda fluente,
em Carmo da Cachoeira
terra de boa gente,
ocorreu um fato inédito
que me deixou descontente.

O jovem Alceu da Costa,
conhecido por "Rolinha",
aproveitando a madrugada,
resolveu sair da linha,
subtraindo de outrem
duas saborosas galinhas.

Apanhando um saco plástico
que ali mesmo encontrou,
o agente muito esperto
escondeu o que furtou,
deixando o local do crime
da maneira como entrou.

O senhor Gabriel Osório,
homem de muito tato,
notando que havia sido
a vítima do grave ato,
procurou a autoridade
para relatar-lhe o fato.

Ante a notícia do crime,
a polícia diligente
tomou as dores de Osório
e formou seu contingente,
um cabo e dois soldados
e quem sabe até um tenente.

Assim é que o aparato
da Polícia Militar,
atendendo a ordem expressa
do delegado titular,
não pensou em outra coisa
senão em capturar.

E depois de algum trabalho
o larápio foi encontrado
num bar foi capturado.
Não esboçou reação,
sendo conduzido então
à frente do delegado.

Perguntado pelo furto
que havia cometido,
respondeu Alceu da Costa,
bastante extrovertido:
"Desde quando furto é crime
neste Brasil de bandidos?"

Ante tão forte argumento
calou-se o delegado,
mas por dever do seu cargo
o flagrante foi lavrado,
recolhendo à cadeia
aquele pobre coitado.

E hoje passado um mês
de ocorrida a prisão,
chega-me às mãos o inquérito
que me parte o coração.
Solto ou deixo preso
esse mísero ladrão?

Soltá-lo é decisão
que a nossa lei refuta,
pois todos sabem que a lei
é pra pobre, preto e puta…
Por isso peço a Deus
que norteie minha conduta.

É muito justa a lição
do pai destas Alterosas.
Não deve ficar na prisão
quem furtou duas penosas,
se lá também não estão presas
pessoas bem mais charmosas.

Desta forma é que concedo
a esse homem da simplória,
com base no CPP,
liberdade provisória,
para que volte para casa
e passe a viver na glória.

Se virar homem honesto
e sair dessa sua trilha,
permaneça em Cachoeira
ao lado de sua família,
devendo, se ao contrário,
mudar-se para Brasília!!!

P. R. I. e expeça-se o respectivo alvará de soltura.
Ronaldo Tovani –Juiz de Direito

Olhem a sabedoria do magistrado! E nada mais há a dizer!
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ZOOM – Abraços para Edersoni Souza, Maria Natividade Varela, Teresa Pedra, Eloer Magalhães, Divany Oliveira, Cláudio Lobato e Tânia Oliveira Terra, nesta terça. Z Outro dia, vi pela TV a um encontro entre Caetano Veloso e MV Bill, que já esteve em Ipatinga. O rapper está colocando sons de violino e saxofone em suas criações e o resultado é surpreendente. Z Abraço especial para a mestra Maria Flor de Maio, da PUC- Betim, cujo nome, deixei de citar, por engano, na última coluna. Z Sabem o que o que vai dar (ou já deu) a apuraçao da Dilma do COLINA com a secretária Lina? N-A-DA! Z Aconteceu em Salvador um mega Encontro de Contadores de Histórias, com gente do mundo todo. Não , não fui, já voltei ao serviço e além disso, o meu prezado marido vai se divorciar de mim se eu for a dois eventos no mesmo mês. Z Na crônica à Rainha Elizabeth, deixei de colocar o pedido para que ela mande comprar óculos para os agentes da Scotland Yard, afim de que enxerguem melhor e não atirem em imigrantes, como Jean Charlles, "pensando que era um terrorista"! Pois sim!Z Muito saúde e alegria para Marli e Paulo Nascimento.Z Um dia lindo e róseo, com estrelinhas douradas e chuvisco colorido, música de Caetano, poemas de Ana Cristina César, e um angu à baiana com tudo que a gente tem direito, inclusive pimenta malagueta e senso de humor pra acompanhar as politiquices do Brasil, são os meus votos.Z Au Revoir

sexta-feira, 19 de junho de 2009

RECADO DE AMOR PARA UMA CIDADE

Nena de Castro ( 28/04/2009 )
Oi, diz que me ama, que eu te levo para dar uma volta, de braços dados, por lugares lindos como o nosso amor! Diz que me ama, e eu te levo à feira do Canaã, para comprar verduras, bater um bom papo, comer pastel com caldo de cana... Diz que gosta de mim, amada, e vamos sair por aí, começaremos pelo Ipaneminha, visitando a igrejinha-museu e assistindo ao Congado. Vamos entrar na dança e bailaremos juntas, entre bandeiras, fitas coloridas e sorrisos daquele povo bom. Ah, me faz um carinho, e eu te levo ao Festival da Banana em Pedra Branca, que tal uma sopa, um licor, um doce para retemperar as energias, e depois iremos participar da cavalgada; vamos montar cavalos fortes e corajosos e cavalgar com Jair Gonçalves, José Fabrício Gomes e todos os nossos pioneiros? Certamente vou cair da sela e você vai rir e me chamar de tonta, enquanto a tarde cai, linda e perfumada... Amada, preciso ter certeza do seu amor, me diz que sou correspondida e viajarei com você pelos ventos brandos, desceremos nos antigos alojamentos do Santa Mônica, lembraremos coisas alegres e tristes e vamos ver Zélia Olguin em sua Academia, ensinando beleza e leveza de passos de balé para toda uma geração, enquanto Matias ensina lutas marciais... Diz que me ama, e te levo à Feirarte no domingo, para comer espetinho de camarão, macarrão com arroz e feijão tropeiro, jogar conversa fora e, com sorte, ver o Mistura Fina cantando Noel Rosa e Tom Jobim. Anda, amada, vem com sua saia rodada e seu cabelo de estrelas, ver o amanhecer na Tribuna, na montanha do Leão Deitado, de onde olharemos o sol e falaremos dos seus sonhos... Sim, vida minha, vamos comer as delícias do Poita e Puçá, as porções deliciosas do Bar do Jeová, na Vila Celeste, os caldos da Graça, no Caravelas, e ver de perto o povo festeiro e engajado do Festival Roda Viva, no Bom Jardim, sem esquecer a traíra desossada do Marombinha... Passeia comigo no Limoeiro, no Bethânia, no Canãa, na Vila Militar... Que tal um banho nas águas do Ribeirão Ipanema caindo em gotas cristalinas sobre nós, no Parque das Cachoeiras? Sairemos renovadas e em risos de criança peralta, vamos tomar sorvete no Veneza, comer linguiça na chapa na feira do Ipatingão, e em dia de jogo, torcer aos gritos para o Tigre, para que voltem os dias de glória! Iremos ao Bela Vista ver Yoshiko Inoue com as mãos de fada compondo Ikebanas, rir com Vera Tufic em seu restaurante no Novo Cruzeiro, e - hum! - comer aqueles quibes deliciosos... Mais tarde, vida minha, vamos passear nas lojas do Centro, vendo tudo o que mudou... No Contingente e no Vila Ipanema, vamos buscar seresta e alegria; no Ideal, veremos com os olhos da imaginação, uma apresentação da Banda Mirim da Corporação Musical Santa Cecília, em hora inspirada, sob a batuta do Maestro Oswaldo Machado, executando lindas canções. Passe comigo, amada, pela Estrada das Lavadeiras, e alcançaremos o Horto, Bom Retiro, Imbaúbas, Bairro das Águas, Cariru, Castelo, ah, quantas histórias se tem por ali! Mas não vou me esquecer de levar você ao Iguaçu, ao Cidade Nobre, ao Panorama, ao Parque das Águas, Planalto II, Morro do Escorpião, São Francisco, e ao Barra Alegre, onde tudo começou... Ah, pensou que me esqueceria da Chácara Oliveira, Chácaras Madalena, do Vale do Sol, Vista Alegre, Furquilha e Esperança? A gente vai lá, criança, ver tudo e algo mais. Diz que me ama e lhe digo que você é linda, sua grandeza sobe aos ares no torvelinho da fumaça que sai das chaminés da Usiminas, aço e raça, fogo e progresso! E no torvelinho e sonho que mistura ontem e hoje, a Maria-Fumaça chega à vilazinha e voa pelos trilhos mágicos, encontrando o progresso, ai como você é bela, menina-moça-mulher formosa, dona do meu amor para sempre! Me dê um abraço apertado, e vamos ao Parque Ipanema, rolar pela grama, tomar água de coco, encharcar a alma de beleza, ver-o-verde, a lagoa, a vida que explode em pujante beleza!Ai, amada, viaja comigo pelo seu futuro, presente e passado, num túnel do tempo mítico que subtrai as dores, acrescenta amores e compartilha alegria! Diz que me ama, e eu lhe faço um verso, lhe dou um limão-de-cheiro, um canto de sabiá, uma canção formosa, um dedo-de-prosa... Pois no seu seio me aqueço e me encontro, raio de sol, rima incontida, eu a amo, cidade querida! Feliz Aniversário, Pouso de Água Limpa, amada Ipatinga de todos nós

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A HORTA






(Nena de Castro)

06/01/2009 -

O recém-aposentado Jaruzley Barroso da Silva, apelidado de Jaru, despediu-se dos colegas da empreiteira e começou a pensar no que fazer. Não sendo homem de ficar parado, decidiu: ia finalmente limpar parte do terreno de sua casa, cheia de mato e tralhas, e fazer uma linda horta. Seus netos iam chegar daí a algum tempo, e ele pretendia ter verdura fresca e de boa qualidade para eles. Uma parte dos dois enormes lotes herdados do pai tinha ficado desocupada. Seu pai, o velho seo Domingos, gostava de animais.Tinha criado porcos, galinhas, e até abrigado um cavalo, nos velhos tempos em que Ipatinga era só uma vila, todos se conheciam e nem cerca era necessário ter. Com o passar do tempo, o bairro se modificou, novas moradias foram construídas, vieram pessoas de longe... Aí foi necessário fazer uma cerca, pois volta e meia sumia um frango, uma galinha virava sopa, um porquinho não voltava da rua... Seo Domingos foi para o céu, Jaru herdou a casa e ali viveu, com mulher e filhos, até a aposentadoria. E agora ia dar jeito naquela parte do terreno que vivia abandonada, separada da casa por uma cerquinha tosca.Tinha primeiro que limpar o local. Levantou-se cedo, bem disposto, pegou facão, foice e enxada, e começou a trabalhar: cortaria o mato, juntaria as pedras, jogaria as tralhas acumuladas no lixo, queimaria o que fosse possível... Ah, ia ser a horta mais bonita e cheia de verduras da região. Poderia talvez até fornecer para as mercearias da cidade. Foice na mão, chapéu para se proteger do sol, iniciou a limpeza. Foi então que o problema começou.O primeiro a chegar foi Tião Ranheta, que indagou o que pretendia, porque estava limpando, se ia construir... Ajudar mesmo, não ajudou, mas deu palpites intermináveis sobre o que deveria ser plantado, e como. E avisou que viria em breve buscar vagens frescas, as “bagecas” que adorava comer refogadas. Quando finalmente Tião saiu, veio Dona Mariquinha, vestida de preto como sempre, com sua inseparável sombrinha, e falou que até que enfim Jaru tinha tomado vergonha na cara, aquele pedaço de terreno cheio de mato era um perigo, podia ter escorpião, podia esconder ladrão, podia ter mosquito da dengue...E ao saber da horta, pediu que ele não se esquecesse de plantar quiabos, adubando bem, pois toda semana ela viria colher. Seo Ladislau pediu pra plantar capiçoba. Zé Tainha solicitou um canteiro de almeirão. Dona Pequetita pediu um canteiro de ervas curativas. Lilica queria chicória. Donana Furinbundana avisou que dali a alguns meses ia casar a filha Verocinda com Zeca Timbó e precisava de muito cheiro verde; Nélrio Bastos, metido como sempre, queria escarola; José Lenine da Silva avisou ao companheiro que deveria plantar frutas que atendessem à coletividade, Chico Sarmento sugeriu uma parreira, era seu sonho desde criança e sua mulher Dandinha, usaria as folhas para fazer charuto de arroz; Rita Lina pediu um pé de maracujá, Iaiá Gomes avisou pra não colocar pesticida nos tomates, pois ela só comia coisas orgânicas; Zelão da Pinga mandou plantar boldo, Tuca Zimbão pediu pé de arruda e comigo-ninguém-pode, Giena Calamares exigiu repolho roxo, cenoura mirim e pepino grosso; Zoca Antero pediu certos afrodisíacos...O fato é que, pelo meio-dia, Jaru, suado e cansado, já estava com o respectivo cheio. Ninguém se oferecera para tirar um graveto, mas todos já estavam praticamente comendo a sua futura horta. E dando mais e mais palpites. Após o almoço, retomou o serviço. E começou a avisar a quem passava que só iria plantar pimenta, pensando que o pessoal o deixaria em paz. Errou feio. Parecia que ninguém tinha o que fazer. As sugestões começaram com seo Titino: pimenta, só podia ser malagueta. Jaru teve vontade de mandar o velho para a-pata-que-o-pôs, mas se conteve. Cerrou os dentes e, no decorrer da tarde, enquanto capinava seu quintal, ouviu palpites e pedidos de que plantasse pimenta dedo-de-moça, barba de bode, do reino, síria, rosa, calabresa, cumari, caiena...Mas a coisa desandou mesmo foi com a visita do ‘capo’ Zicão da Baixada, que chegou devagar, a camisa aberta no peito, exibindo um cordão grosso de ouro, olhou para um lado e outro, e começou a propor sociedade a Jaru num certo tipo de plantas que deveriam ficar no meio das verduras, em canteiros especiais. Ele forneceria as mudas, custearia o muro bem alto, colocaria cães bravos no local, deixaria um homem para afastar os curiosos... Era lucro certo e o dono do terreno teria uma boa porcentagem. Para finalizar a história, a vizinhança não entendeu nada quando, no dia seguinte, encontrou Jaru cimentando o pedaço de terra. E nosso herói, quando ouve alguém falar de horta, disfarça e muda de assunto, falando da má fase do Ipatinga FC. Que há de passar, se Deus quiser.

GOURMANDIZES

(Nena de Castro)

Os ricos comem caviar,
Crepe Suzzete e lagostim
com champagne.
Contudo, nunca provaram
o ensopado de inhame
feito pela mui digna D. Inês,
que vem a ser
a senhora minha mãe.

caldinho fumegante ,
cheirando a cebolinha
e pimenta do reino,
misturado ao arroz e feijão
cozidos em banha de porco
na panela de ferro
no fogão a lenha.
Hum...

Grande chef de cuisine,
Sabedora das mineirices culinárias
cujos sabores e mistérios
se escondem
no santuário
das montanhas de Minas,
mamãe cozinhava e nos enlevava.
Tempo bom!

Quanto aos ricos, bem,
Eles têm chefs franceses
salmon, salada Waldorf,
mas o caldo de inhame
feito por mamãe,
ascendia aos céus
e nos sustentava o corpo e a alma...

Pobres ricos!
tenho tanta pena,
que nem vou falar
no mingau de fubá
com couve rasgada,
na pamonha temperada
com pimenta malagueta
cozida na folha de banana,
e na galinha recheada pelo fiofó,
costurada bem cheinha
de farofa de miúdos,
que eles nunca haverão de provar,
ò dó!



CARTA PARA IL SIGNORE BERLUSCONI

27/01/2009 -
(Nena de Castro)

Excelentíssimo, ilustríssimo e tudo quanto é íssimo 1º Ministro da Itália, Sílvio Berlusconi

Eccellenza, buon giorno!

Grazie por receber esta missiva. Aqui quem escreve é uma velhinha da plebe ignara brasileira, uma macróbia pertencente à patuléia, à choldra, e que reside por entre as montanhas de Minas Gerais. Ocorre que, tendo lavorado incessantemente durante toda a minha existência, ando meio desacorçoada; veja o signore, ainda pequena, já carregava a vasilha de leite e o balaio com esterco para mamãe adubar nossas couves e taiobas. Tangi boi no engenho para o fabrico de rapadura, soquei café em coco no pilão, para meu pai avaliar a qualidade e, por ser caçula, tinha de colocar água e comida para os porcos. Fui também atendente e caixa na padaria de meu pai, e após fazer o Curso Normal, lavorei, lavorei e lavorei como professora e ainda lavoro. Allora, io e mio esposo resolvemo nos separar, e fomos contar nossos bens: três filhos, um "cachorro coxo" que não "se chama Caxambu", e uma sabiá que não paga aluguel, a Gertrud; um carro da era de Matusalém, um sofá velho, meia dúzia de pratos, três conchas, 3 garfos e duas colheres... Per favore, scusa estar falando do pouco que tenho, ma noi duo desistimo da separacion, ia dar molto trabalho por niente. Ma Eccellenza, porca miséria, quem me dera ser parte daquele divórcio do casal de políticos que possui 145 fazendas, ilhas, aviões, helicóptero, apartamentos em Roma, Paris, poços de petróleo... Va bene, fare o che, continuo casada com mio marido. Ma, Signore Berlusconi, o principal assunto de minha carta é scusarme em nome de meu paese por ter dado asilo ao signore Battisti; coitado, ele é inocente, cometeu só uns crimezinhos de nada, e merece ser acolhido neste paese generoso. Eccellenza, da cabeça desta velhinha veio a solução para impedir la guerra entre as duas nações: Signore, ficamos com Battisti e, em troca, por justiça, lhe enviamos um rapaz ótimo, chamado Fernandinho Beira-Mar! Que tal? Esta velhinha é um gênio e outras coisas que a modéstia impede de dizer! Che sorte a do signore Battisti ser italiano e não cubano, né, senão aí a jiripoca chiava pro lado dele. Signore Berlusconi, além de Fernandinho Beira-mar, io lhe ofereço de presente uma estrada régia, belíssima, sem buracos, sem mortes, chamada BR-381, perfeita para o signore passear quando vier ao Brasil. Eccellenza, vindo à minha terra, interceda por mim, para ver se consigo inscrever meu cãozinho, o Kid, no Programa Bolsa-Família, per favore. Um cidadão honesto conseguiu inscrever seu gatinho, de nome Billy da Silva Rosa, ma, perche io non posso inscrever o Kid Vieira da Silva Castro no programa? Scusi, ma penso que, na verdade, Kid, que tem a bacia quebrada e é manco, devia mesmo é ser aposentado por invalidez, capisce? Signore, algum dia irei ao seu paese, pois sei que V. Eccellenza é um homem probo, de fala comedida, que admira as pessoas "queimadinhas de sol" e zela pela moral e bons costumes. Aliás, aplaudi muitíssimo quando mandou cobrir aquele seio de uma obra de arte que ficava atrás de sua mesa de trabalho. É vero, Eccellenza, fiquei emocionada com vossa iniciativa e, quando estiver aí, permita-me cobrir as partes daquela estátua de Davi, feita por um tal Michelângelo Buonarotti, ma que indecenza, as partes do bem dotado rapaz estão todas expostas! Mamma mia, vou cobri-lo, em nome da TFM e de todas las instituiciones que velam pela moral neste mondo perdido. Augurando-lhe felicitá com a troca de Batttisti por Fernandinho Beira-mar, despeço-me.
Grazie per tutti, Dio te benigne, arrivederci.
Sua extremosa amica
Zefa da Furquia

terça-feira, 7 de abril de 2009

GERTRUD ESTÁ DE LUTO...


Gertrud, minha sabiá, canta do jardim me chamando. Pelo seu canto percebo que está impaciente e zangada. Chego até à janela.- Olá, Gertrud! Como vão as coisas?- Até que enfim! Não tenho o dia inteiro!- Nem eu, Gertrrud. Estou escrevendo minha crônica. Aliás, você podia me explicar o que fazia sexta-feira, perto da Prefeitura? Não disfarce, eu a vi lá; você fingiu que não não era com você, mas eu vi, amiga!Gertrud dá uns pulinhos no galho da escumilha, se ajeita em um pé, procura uma posição melhor... Está inquieta e realmente zangada:- Olha aqui, posso voar e ir para onde eu quiser, sou um pássaro! Não sou limitada como os seres humanos, nem tenho excesso de peso como certas pessoas com quem convivo!- Sem ofensas, Gertrud, o meu peso não é da sua conta. Mas você ainda não me respondeu: o que fazia por lá?- Bom - diz a avezinha, mudando de galho -, eu fui lá saber das novidades. Afinal, quem vai ser o prefeito de Ipatinga? Estou receosa de uma reedição do drama tragicômico de Timóteo. E nesse caso, a cidade pára, e o povo sofre!- Gertrud, não vou discutir isso com você, é cedo pra gente se arriscar em prognósticos. Vamos aguardar, digo em tom conciliador.Ela nem me ouve e dispara: - E aquele absurdo da condenação do casal Nunes, de Timóteo, que quer educar seus filhos em casa e está levando o maior ferro nos Tribunais? Meu Deus: alguém, por favor, tire a “venda da Justiça” no tocante ao caso dos irmãos Jônatas e Davi Nunes que os pais querem educar em casa! Logo nesse país, com tantas crianças e adolescentes nas ruas, com o péssimo nível de ensino que temos, que nos deixa nos últimos lugares entre os países no quesito qualidade de educação, parece brincadeira!- Gertrud, você hoje está impossível! Veja se me deixa em paz, estou tentando escrever sobre um poema de Álvares de Azevedo, dá um tempo, amiga!- Muy amiga, nem quer me ouvir hoje! Você parece traça de livro, sempre rodeada por essa papelada!- Ué, Gertrud, pensei que gostasse de livros, de poesia, de ler... Vive me citando trechos de lindos poemas, de romances... - Gosto sim, mas hoje não quero saber de nada!- Mas o que foi, criatura, por que você está soltando fogo pelas ventas?- É por causa do meu parente, o Pixarro, lá em Itapira, em S. Paulo! Coitado, que morte inglória! Além de viver no cativeiro, foi roubado, e colocado na cueca do ladrão! Morreu sufocado, por falta de ar e pelo calor daquela “coisa horrorosa”. Pobrezinho! Se ainda tivesse sido apanhado por um gavião, mas não, foi enfiado lá junto das “partes” do desalmado! Acabou indo desta para melhor, de uma forma tão absurda tão... kafkiana! – disse, enxugando as lágrimas!- Gertrud, eu... - Fiquei sem saber o que dizer. A sabiá alçou voo e se foi. Ainda pude ouvir sua voz:- Também, num país em que o presidente vai tentar explicar a crise econômica, com o estado de um doente e fala “sifu”, numa declaração, o que se pode esperar? E alçou vôo e foi embora... Pobre Gertrud, pobre trinca-ferro, ai de nós...

POESIA SEMPRE

COGITO
(Torquato Neto)
eu sou como eu sou
pronomepessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

DE SARAMAGO,enchentes e rosas...


Nena de Castro - MACUNADRU

O escritor português José Saramago não acredita em Deus. Direito dele. Cada um escolhe em que acreditar... Deus está em tudo, e a prova se faz no nosso dia-a-dia, na contemplação de tudo que existe. Ruinzinhos mesmos somos nós, que destruímos metafórica e literalmente a beleza da Criação, e cavamos nossa própria sepultura. Deus é a realidade mais tocante e verdadeira para quem crê, independente de rótulos, religiões e códigos... Eu creio nEle, mas eu não sou Saramago. O brilhante jornalista, poeta, roteirista, dramaturgo e escritor foi agraciado com o prêmio Nobel de Literatura de 1988. A ele devemos o efetivo reconhecimento internacional da prosa em Língua Portuguesa. Saramago maneja as palavras como se tivesse uma relação incestuosa com elas; num brilhantismo total, as palavras são suas filhas, são suas irmãs, suas servas, espada e corcel e por que não? suas doces amantes.. . Sara-Mago é, como diz seu nome, um curandeiro, um mágico que nos salva da monotonia, e da obscuridade, entrecruzando as palavras com maestria e nos proporcionando um prazer estético sem limites. Certamente meus leitores e leitoras sabem de seu livro "Ensaio sobre a Cegueira", que deu origem ao filme de mesmo nome dirigido pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles. Já "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" lhe rendeu muitas polêmicas, principalmente com o Vaticano, que por ocasião do Nobel, fez sérias críticas pelo prêmio "ter sido concedido a um comunista..." Bom, o mágico esteve no Brasil semana passada, lançando seu novo livro e participando de um debate pelos 50 anos da Ilustrada , que vem a ser o caderno cultural da "Folha de S. Paulo. Com a clareza e inteligência de sempre, discorreu sobre a nossa má postura diante da vida. Afirmou, peremptoriamente, "que a humanidade não merece a vida, que a história é um desastre contínuo. Nunca houve nada que se parecesse com um momento de paz . Não usamos a razão para defender a vida; usamos a razão para destruí-la de todas as maneiras – no plano público e privado." E continua o escritor: Por que teria que mudar minha concepção de Deus após a doença? Porque supostamente me salvou a vida? Quem me salvou foram os médicos e a minha mulher. E Deus se esqueceu de Santa Catarina? Não quero ofender ninguém, mas Deus simplesmente não existe." E por aí afora foi o "encantador de palavras", numa palestra concorridíssima, cujo resumo li com veneração e respeito. Só que, data maxima venia, desculpando-me pela minha pequenez, pela minha ignorância, pois afinal não passo de aprendiz de escriba, jia–cururu espiando os grandes astros do Olimpo dos escritores, eu discordo de SARA-MAGO quanto a Deus ter se esquecido de Santa Catarina, ou da África, onde tantos morrem de fome, ou dos povos em eterno conflito no Oriente. Quem provocou a tragédia de Santa Catarina não foi o Criador e sim, o próprio homem. Para começar, a Defesa Civil de lá sequer tinha listadas as áreas passíveis de inundação. O solo argiloso, a declividade das encostas, os desmatamentos, as ocupações desordenadas, e outros que tais, ignorados pelas autoridades que só se movimentam (e às vezes com muita lentidão) depois das tragédias, deu no que deu: centenas de vidas preciosas perdidas. Ah, não venham culpar Deus por isso! Contudo, louve-se a solidariedade do nosso povo! O brasileiro, para nosso orgulho, tem a generosidade no coração! A propósito, as declarações do gênio das letras portuguesas trouxeram-me à memoria um fato de abril de 1961: o russo Yuri Gagarin, a bordo da nave Vostok I, realizou a incrível façanha de fazer a primeira volta completa em órbita ao redor da Terra. Declarou primeiro a frase que fez a delícia dos poetas "a Terra é azul." Depois, seguindo certamente as tendências ideológicas de seu governo, afirmou: "estive no céu e não vi Deus." Tal assertiva teve grande repercussão na época. Uns acharam ótimo, outros se indignaram, mas a melhor resposta foi dada por um religioso norte-americano, cujo nome não me lembro, em um artigo de famoso jornal: "Meu caro Gagarin: você declarou que esteve no céu e não viu Deus. Pois eu lhe digo que não viu porque não quis. Era só tirar o equipamento e dar um passo para fora da nave..." Pois é, louvando o saber, o brilhantismo, o domínio das letras, a inteligência de SARA-MAGO, a jia-cururu aqui torce para que ele possa conhecer Deus, ainda antes de sair da nave-Terra....
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VIVER E FESTEJAR!
Era uma manhã de sexta feira cinzenta. Que de repente ficou iluminada, com a presença de duas pessoas excepcionais: meu amigo Beto Souto e sua amada, Célia Garcia de Moraes. Traziam sorrisos, e ele nas mãos, uma linda orquídea. Era a flor pelo meu aniversário, que ele me oferece todos os anos. Ia me entregar no dia 31 de outubro, durante o evento literário que a professora Célia faz com seus alunos, no Colégio Assedipa, já em sua 6ª edição. E que neste ano homenageou poetas da região. Eu tive a felicidade de ser uma das escolhidas, apesar de ser uma poeta incipiente, e uma cronista que tecla e mal, umas croniquetas que são toleradas pelos meus leitores e leitoras. No entanto, tinha um outro compromisso literário, agendado previamente e não pude participar da linda festa. Depois, fiquei uns dias "de bode" por causa de ites e oses e eles deixaram para me entregar a flor quando pudessem me encontrar. Que bom, já dizia o poeta "todo dia é dia de viver". E de festejar. Além disso, recebi um dos meus poemas, Enigma, em forma de banner, feito pelos alunos da professora Célia. Fiquei grata e comovida. Beto, professor de História, já aposentado, um caráter excepcional, ama as rosas. Tem dezenas de roseiras no seu jardim. E ama Vinícius de Moraes. E ama sobretudo, a professora Célia, que corresponde ao seu amor, e também, ama Vinícius, a Língua Portuguesa, a Literatura, e o trabalho que faz, plantando beleza na mente de seus alunos. E eu tenho a maior alegria de conhecer s dois. E nada mais digo!

POESIA SEMPRE

EU LUMINOSO NÃO SOU
(José Saramago)

Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d’água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.