sexta-feira, 15 de agosto de 2008
ENIGMA II
Desatem-se os laços das ilusões
E saiam dos castelos os cães da ira.
O rumor do cavalgar dos alazões
povoe o entardecer dos sonhos rotos...
Rujam as feras nas goelas dos penedos
indevassáveis das mentes,
E vorazmente,
Estilhacem em mil pedaços a minha face.
E seja noite no retinir de copos,
no roçar de corpos
E seja triste o canto ciranda da serpente
Sepulcro belo, solução pungente
De um grito calado na garganta...
terça-feira, 12 de agosto de 2008
DE LOUCURA, POESIA E SAUDADE...

(Quixote- Picasso)
Ventos de agosto. Eclipse raro que vem. Tomara a festa dos astros adiante alguma coisa, e a gente aprenda a ser melhor. “Qual o quê” diz Chico Buarque. Faces negras da violência e da dor. Notícias ruins... Sangue, miséria. Ditadores. Por isso gosto dos loucos, os doidinhos que cantam, mansos e serenos, no seu mundo que nunca iremos alcançar. A mulher esfarrapada, que segura, ternamente, uma boneca de pano. E canta canções de ninar. O homem que carrega uma caixa de papelão e caminha discursando para seus súditos invisíveis, em voz alta, como convém a um grande imperador. A avó que continua a ensinar aos seus, ora com palavras doces, ora ásperas, falando com sua família, embora esteja numa cama de asilo e eles todos estejam mortos. Crianças maltratadas, seviciadas, mortas. Mundo, mundo... Vanitas vanita. Caminhada entre abrolhos e rosas. Luzes e trevas em alternância sagrada. Oráculo dos terrores. Claríssimo enigma. Poesia. Luz no caos...
CANÇÃO DA ALMA CAIADA
(Antonio Cícero )
Aprendi desde criança
Que é melhor me calar
E dançar conforme a dança
Do que jamais ousar
Mas às vezes pressinto
Que não me enquadro na lei:
Minto sobre o que sinto
E esqueço tudo o que sei.
Só comigo ouso lutar,
Sem me poder vencer:
Tento afogar no mar
O fogo em que quero arder.
De dia caio minh’alma
Só à noite caio em mim
por isso me falta calma
e vivo inquieto assim.
Lindeza, hein, gente? O autor de tais versos é Antonio Cícero, irmão da cantora Marina Lima. O cara é professor de Filosofia e outros que tais. E grande poeta. Este poema foi escrito quando morava nos EUA. Marina musicou. Maria Bethânia gravou em 77, mas a censura da “gloriosa” ditadura militar baixou a tesoura! Onde já se viu um sujeito dizer que não se “enquadra na lei?” Não sei como não deu cana! Anos depois, Zizi Possi fez nova gravação. No CD “Pedaço de Mim” Marina Lima cantou-a em shows, mas nunca chegou a gravá-la, certamente pelos problemas que surgiram. Com música ou não, é um poema belíssimo, que me ajuda a exorcizar meus fantasmas ante as inquietações existenciais e que compartilho com meus leitores e leitoras. Que merecem, uai!
EU NÃO ME ESQUEÇO DELA...
O texto abaixo foi escrito em 1998. Fala de uma mulher extraordinária, a juíza Valéria Vieira Alves, que eu conheci de perto. Fala de uma mulher que se importava com as pessoas. Que era simples como o arroio que desce da montanha. Que tinha um coração sensível, a ponto de um dia, após uma audiência de uma mulher que estava em grande dificuldade com a filha doente, me chamar discretamente e pedir para entregar à minha cliente o dinheiro para os primeiros exames! É tão raro ver alguém se condoer pelos mais pobres e, mais raro ainda, ver tais atitudes. Sempre vou admirá-la, pelo fantástico ser humano que foi. Ofereço o texto abaixo a seu filho, à sua mãe e a seus familiares e amigos:
Dra. Valéria,
Passou o tempo, mudaram as estações, os dias se foram, cada noite desceu sobre a Terra, já tivemos frio, o verão se faz anunciar em brilhantes raios de sol, muita coisa foi mudada neste tempo, só uma permanece imutável: a saudade que sentimos da senhora. Falta no nosso meio o seu sorriso, o calor humano que transmitia, a sua alegria de viver, a esperança que brilhava em seus olhos. Há um lugar vazio nos nossos corações, que só a sua imagem preenche e todos nós lembramos de risos, fragmentos de conversa, sentenças e despachos, e sobretudo do seu carisma e do amor que transmitia .Está nas Sagradas Escrituras que há um tempo para tudo debaixo do sol: tempo para sorrir e tempo para chorar, tempo de guerra e tempo de paz, tempo para plantar e tempo para colher. Contudo, para nós é, desde a sua ida para a eternidade, tempo de saudade, saudade infinda e imorredoura que grava em caracteres dourados a sua imagem em nossos corações.Descanse em paz, Drª. Valéria, junto com o nosso Deus, que preparou para a senhora um lugar de felicidade na casa celestial.Pela comunidade ipatinguense, por seus colegas de trabalho do Fórum e pelos advogados desta Comarca que jamais a esquecerão, receba a homenagem da escriba,Nena de Castro
ZOOM►Adivinhem quem revi, outro dia, no Shopping: a fofinha Mariana, com mamãe Valéria Notinni, passeando. Linda cena! ►Bush perdeu mais uma ocasião de ficar calado, criticando países (leia-se a China) onde falta liberdade de imprensa. Rô, rô rô! O grande líder de lá fala tanta besteira quanto o nosso! ►Um abraço para Adélio Duarte, presidente da OAB, para o psicólogo e pastor Cleydemir Santos, Socorro, André e Bia, e para Fátima Salles, nesta terça. ►Revi os advogados Joel Lacerda e Wilza com os três filhos, que estão uns rapazes lindos. Joel é um excelente advogado criminalista, a quem a população pobre de Ipatinga deve muito, pelo excelente trabalho que fez na Defensoria Pública Municipal. ►Meu amigo Rubem, por que não apareceu para o almoço? Azar o seu! Tava danado de bom! Apareça. Sô! ►O trem tá meio feio para Barack Obama! Torçamos para que tudo corra bem nas eleições americanas, mas acho meio difícil a elite branca do país aceitar sua eleição. ►E as Olimpíadas prosseguem em Pequim. Torcemos pelos brasileiros, mas eu fiquei fã daquela mocinha que desafiou o Dragão, portando uma bandeira do Nepal! Um dia lindo, uma semana abençoada, com muita coisa boa rolando, aumento de salário, aumento de sorrisos, diminuição nos preços dos alimentos, porque nós merecemos! Leitura de poemas de Antonio Cícero e som de sua irmã Marina Lima, doce de goiaba em compota, depois de uma canjiquinha com costela, amor e paaaz, são os meus votos. ►Críticas, sugestões e eventuais elogios pelo e-mail nenadecastro@yahoo.com.br. Visite o nenadecastroblogspot.com.br e deixe um comentário de suas impressões, ok? Au Revoir.
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
ODE(o) ao PERNILONGO
(Ridendo castigat mores)
I
Pernilongo inconseqüente,
Incoerente, desgraçado
- não respeita nem a mim,nem a esse resfriado
-que me sufoca em espirros!
Vá zunir noutra paróquia!
Vá para outra biboca!
Seu ... inseto, seu ... vampiro!
II
Respeite o sono sofrido
Que essa escriba ora tenta,
não quero correr perigo,
De amanhã, sonolenta,
Envergando a negra beca,
E não estando atenta,
E não estando alerta,
não fazer a coisa certa.
III
E num vexame tremendo
no decorrer da Audiência,
diante de sua Excelência,
não dar aquela "espremida"
E deixar faltar comida,
Pros "Zezinhos" que defendo
dos papais, sem consciência,
indiferentes, nojentos,
que os jogaram no mundo,
mas não pagam os alimentos!
IV
Pernilongo vagabundo,
Fidamãe, desnaturado,
indigno representante
Dos mosquitos educados,
Sou pessoa "importante"
(- é favor não ficar pasmo: )
professora ... e sofredora,
(me perdoe o pleonasmo!)
pois é assim que me sinto,
trabalhando com afinco,
para os "do povo", sofridos:
Sou a Pública-Defensora,
Super-Nena, a protetora
dos "frascos e comprimidos"!
V
Pernilongo renitente
Sanguessuga, me respeite,
já tenho quem me atormente
me cobre juros altíssimos,
me trate com destempero:
pra isso tem o governo,
O BNH, o banco,
O INSS perverso
O "leão" feroz e bronco,
E políticos "seríissimos" ! ...
VI
Pernilongo desalmado,
Que me quer morta, exangue,
fica aqui o meu recado:
Se quiser chupar meu sangue,
Pode, mas tenha bom senso!
Pique, chupe, roube, leve!
MAS FAÇA ISSO EM SILÊNCIO!
domingo, 10 de agosto de 2008
LIÇÃO DE INGLÊS (Ou de AMERICANÊS)

Mrs. Green e Mrs. White
na varanda,
tomam seu chá das 5,
à moda inglesa.
In the garden,
Ted, John e Mary,
corados e felizes,
brincam with the dog...
Mr. Green e Mr White
estão no trabalho
produzindo riqueza,
pilares da grande nação.
Mrs. Green e Mrs White,
sorrisos felizes, suspiram:
Tudo é tão perfeito...
Enquanto isso, crianças do 3º mundo
se retorcem de fome e agonizam...
Mas , “This is a book
This is a country
This is the most perfect way of life”.
Afe!
“The book is on the table,
The sky is so blue
And life is so good”, (for them)
And nós, as alimárias do 3º mundo,
mastigamos nossa ração,
o pão ázimo da infinda servidão ...
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
NO CARIBE SOPRAM OS VENTOS
Essa semana que passou foi pródiga em notícias sobre a renúncia de Fidel Castro. Quem diria, o líder da revolução cubana, o homem que tirou o sono dos americanos por mais de quatro décadas, sai pacificamente do cenário político cubano e mundial, após tantos anos de mão forte governando a ilha, não obstante os mais de trezentos atentados de que escapou, incólume! Para onde Cuba caminhará agora, eu não sei. Os fatos se sucederão no balanço dos dias, que caminham sempre, sempre, na sucessão de horas que marcam, segundo a segundo, a fragilidade da nossa caminhada sobre a Terra. E o fato é, quer queiram ou não os líderes mundiais, Fidel foi a encarnação do último mito do libertador da América, na eterna luta contra a supremacia norte-americana sobre os vizinhos do sul do continente. Hoje existem uns arremedos grotescos - vide Evo Morales e o impagável Coronel Chávez -, candidatos a ficar na História mais pelas bravatas e devaneios histriônicos do que por feitos memoráveis... Na época da chamada guerra fria, Cuba foi rotulada como estopim do mundo, aqueles mísseis soviéticos por lá, tiraram o sono de muito governante americano, a invasão desastrada da Baía dos Porcos foi um vexame para os gringos... Durante a execranda ditadura brasileira, era perigoso até pensar na ilha do Caribe, que tencionava exportar revolução marxista e, portanto, era o demônio que a direita precisava exorcizar... Inclusive provoca riso até hoje o caso de um escritor famoso que foi preso e duramente interrogado, por ter escrito um artigo sobre o Cubismo. Seu interrogador desconhecia os movimentos artísticos do mundo e não havia jeito de fazê-lo entender que esse Cubismo não era uma alusão a Cuba. O episódio é contado por Frei Betto em um dos livros em que narra a sua saga nos porões da Ditadura... Bom, o que acontecerá aos cubanos agora eu não sei, ninguém sabe, mas de uma coisa eu tenho certeza: torço pelo povo cubano, que é muito amável e demonstra um carinho imenso pelos brasileiros. Fui a um Congresso de Professores em Havana, em janeiro de 1993, e foi uma experiência enriquecedora tanto na área educacional, quanto na de conhecimento humano. Andar pelas ruas de La Habana, como os cubanos chamam sua capital, passear pelo Malecón, que é a avenida à beira-mar, de onde se avista a eterna luta das ondas contra a mureta, visitar o museu da Revolução, ir à praia de Varadero, e contemplar as águas verde-jade do Caribe, são coisas inesquecíveis! Descobrir que andar pelas ruas de La Habana é como andar em qualquer rua de cidade brasileira, encontrando negros, brancos, mulatos, naquela farra oriunda da miscigenação e integração social, foi uma alegria! Visitar a Cidade Vieja, parte antiga da cidade, cujos casarões lembram os de Salvador, tomar um mojito, bebida feita com rum, açúcar, água, limão e hortelã, (pronuncia-se morrito) na Bodeguita del Médio e ter a audácia de deixar a assinatura na parede que Hemingway e centenas de pessoas, famosas ou não, assinaram, foi emocionante. Tomar um sorvete na Sorveteria Coppelia, famosa no mundo inteiro, foi delicioso. Encontrar pelas ruas um cubano negro que falava português porque havia lutado em Angola, foi fascinante; verificar que o hotel Vedado, onde estávamos hospedadas, tinha sofrido um atentado por parte dos guerrilheiros castristas por ser sede da revista americana Seleções do Reader’s Digest, deu arrepios. Visitar a Marina Hemingway e assistir a um show de variedades, com música, dança e uma representação de orixás e rir à beça da baiana Daysi, que afirmou que os orixás da Bahia eram superiores, foi divertido. Ouvir do vice-ministro da Educação cubana que a América se dividia em 90% de pessoas que não dormiam, por fome, no Sul, e 10% ao Norte, que não dormiam por medo do percentual famélico, foi instigante. Passar perto do local aonde crianças brasileiras, contaminadas no acidente do Césio 137, em Goiânia, e as de Chernobyl, recebem tratamento, foi um instante terno. Visitar a Casa de Las Américas, que realiza um Concurso de Contos famoso no mundo inteiro e assistir uma palestra sobre as ditaduras da direita na América Latina, e seus malefícios, em especial no Paraguai, foi esclarecedor. Participar dos debates do Congresso Educacional e verificar os desafios vencidos pelos cubanos, foi envolvente. Conviver durante uma quinzena, com centenas de professores de todos os países da América do Sul, Espanha e México e ouvir suas experiências, foi especial; oferecer a alguns, o livreto OPUS com poesias de professores da Rede Municipal, (editado a partir de uma sugestão minha) foi prazeroso. Visitar um Centro de Educação que as crianças cubanas freqüentam após as aulas e onde fazem uma oficina de cada profissão que existe, para descobrir suas reais aptidões, ver funcionar a oficina de fabricação de vidro, de conservas e de telefonia, foi profundo; achar no local o livro de visitas assinado por personalidades do mundo inteiro, como Ho Chi Min (Vietnã do Norte) e Patrice Lumumba (Congo), entre outros, e deixar uma mensagem, encorajando os cubanos, assinando meu nome e deixando o nome de Ipatinga, do estado e do meu país, foi um atrevimento. Conhecer um cirurgião chamado Dr. Eugênio, que lutou com Guevara, foi o máximo; ver Fidel duas vezes, no início do Congresso, e no decorrer deste, falando mansamente a princípio, e emocionando-se ao mencionar o embargo americano, foi muito bonito. No moderníssimo teatro Karl Marx (que eles chamam de Car-los Mar-ques, assim arrastado), na noite do encerramento, no escuro, ouvir uma moça, sentada num banquinho, só com um foco de luz, tocando violão e cantando Coração de Estudante em espanhol, deu um aperto neste velho coração emocionado. E muitas outras coisas vi e presenciei, que me deixam na torcida, não por governo esquerdista ou de direita, mas pelo povo, pelos nossos irmãos, que merecem viver dias de fartura, alegria e paz. Pois é, no Caribe sopram os ventos! Que sejam ventos favoráveis aos cubanos...
ZOOM- Ter toda a bagagem furtada do carro do meu sobrinho Clênio, que foi me apanhar no aeroporto em São Paulo, quando voltei de Cuba, me lançou de novo na dura realidade da insegurança de nosso país! Mas sobrou uma camiseta, que guardo com carinho, e umas lembrancinhas que uma garotinha da oficina de fabricação de vidro me deu, e estavam na pochete, na cintura! Ainda bem que ainda não inventaram um jeito de roubar lembranças! Ou será que eu é que não estou sabendo? Contudo, a viagem valeu a pena, se valeu! Um abraço para o sr. Vicente de Paula Lima, que toda semana lê minhas crônicas. - Sabem quem completou oitenta e nove aninhos ontem? Ela mesma, dona Inês Margarida Vieira, que vem a ser a senhora minha mãe! Lúcida e forte para a idade, graças a Deus! Passamos o domingo todo com ela comemorando a bênção! Parabéns, mãezinha querida! - Palmas para a grande Marízia Edite, que comemorou seu aniversário com uma big festança! Felicidades, amiga! - Leiam o ensaio de Roberto Pompeu Toledo sobre o significado da possível eleição de Barack Obama, na Veja desta semana. - Um dia cheio de bons negócios e bom trabalho para todos, muita cor, músicas do CD novo de Maria Rita, feijão tropeiro com couve e lombo assado, doce de figo em compota, crônicas de Rubem Alves, alegria e paaz, são os meus votos. - Críticas, sugestões e eventuais elogios, pelo e-mail nenadecastro@yahoo.com.br Au Revoir.
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sábado, 2 de agosto de 2008
(Imagem- "O Grito" - Munch )CALENDÁRIO
Nena de Castro (Macunadru)
É agosto
E no meu rosto
Se acentua o meu desgosto.
Cada qual na sua face
Que a sua sina trace,
A minha já está traçada:
Na engrenagem da vida
esmagada, bem moída,
uivo de medo e de dor...
È agosto,
e o meu desgosto
marca as marcas do meu rosto
.Dói bem fundo,
Dor bem fina,
Dor doída,
minha sina.
Percebo que essa dor
Que me rói e estraçalha
Feito fio de navalha
Não é por causa do mês
Já nasceu aqui comigo
Como gêmeo siamês.
E é fato verdadeiro
Essa dor, pelo que entendo,
Dói de setembro a dezembro,
De janeiro a fevereiro,
E no mormaço de março
Dói como nunca se viu.
-A dor não some, é abril!
Em maio ela continua
Crua, triste, feia e nua,
Junho, julho, não sumiu!
E nem bem o frio jaz posto,
Eis de novo o mês de agosto,
Pobre mês, triste, alcunhado,
De azar acompanhado
Que carrega, desencanto,
A desculpa do meu pranto.
É agosto, e o meu desgosto
Carpe as mágoas em meu rosto
Neste longo calendário
Minha dor, meu inventário.
(agosto 85)
